A IA vai substituir minha profissão?
Os estudos de referência, como o índice da OIT e a aplicação dele aos dados do Brasil feita por pesquisadores do FGV Ibre, não dizem quais profissões vão acabar: eles medem exposição, o potencial de a IA generativa automatizar, no todo ou em parte, as tarefas de cada ocupação. Como quase toda profissão tem tarefas que ainda dependem de pessoas, a OIT aponta a transformação do trabalho, e não o fim de ocupações inteiras, como o efeito mais provável. Exposição não é demissão, mas uma análise de Daniel Duque, do FGV Ibre (2026), já encontrou no Brasil sinais iniciais de queda na ocupação e na renda de jovens de 18 a 29 anos com perfil mais exposto.
A IA substitui profissões inteiras ou tarefas?
Uma profissão é um conjunto de tarefas, e é tarefa por tarefa que os estudos avaliam a IA. No índice global da OIT, de 2025, o potencial de automação de milhares de tarefas foi pontuado numa pesquisa com trabalhadores e revisado por especialistas. Com essas notas como referência, um assistente de IA pontuou as tarefas da classificação internacional de ocupações, e cada ocupação foi classificada pela média e pela variação das notas das suas tarefas.
Pela mesma OIT, poucas ocupações são formadas só por tarefas que a IA generativa atual consegue automatizar por completo: quase todas têm tarefas que exigem trabalho humano. Exposição, portanto, não significa automação imediata de uma ocupação inteira, e sim o potencial de que uma parte grande das tarefas atuais passe a ser feita com a tecnologia. Se isso vai eliminar postos depende das decisões de adoção e de as pessoas terem a oportunidade de aprender a trabalhar com ela.
Isso não garante estabilidade. A OIT lembra que ganhos de eficiência podem reduzir o número de pessoas necessárias numa ocupação e que suas estimativas são um teto: mostram o que poderia ser afetado se a tecnologia fosse adotada por inteiro, não o impacto real no emprego nem as vagas novas que podem surgir.
Quais tarefas estão mais expostas à IA?
Segundo a OIT (2025), um em cada quatro trabalhadores no mundo está numa ocupação com algum grau de exposição à IA generativa, e 3,3 de cada 100 empregos estão no grau mais alto. A exposição cresce com a renda: vai de 11 de cada 100 empregos nos países de renda baixa a 34 de cada 100 nos de renda alta.
O grupo mais exposto continua sendo o de apoio administrativo. Das 13 ocupações que a OIT põe no grau mais alto, a maioria é de funções como digitação e entrada de dados, auxiliar de contabilidade e escriturário. Desde a edição de 2023, a exposição também subiu em ocupações muito digitalizadas, como desenvolvimento web e de software, estatística e bancos de dados e finanças, porque os modelos passaram a lidar com imagem, áudio e vídeo e a executar algumas tarefas de várias etapas.
Mesmo nessas ocupações, nem toda tarefa vira automática. A OIT revisou para baixo a nota de tarefas como anotar reuniões e marcar compromissos: a IA ajuda, mas muitas ainda exigem bastante esforço humano. E a técnica não é tudo: infraestrutura, habilidades digitais, custo e a aceitação de clientes e instituições limitam a adoção mesmo quando automatizar é possível. A OIT dá como exemplo instituições financeiras que podem hesitar em deixar com a IA decisões como a aprovação de financiamentos imobiliários, preferindo manter o julgamento, a supervisão e a responsabilidade humanos.
Na outra ponta, segundo a OIT, a exposição é menor nas ocupações com mais tarefas de natureza física. Na revisão do estudo, especialistas baixaram as notas que os trabalhadores tinham dado a tarefas de ofícios, de operação de máquinas e da agropecuária, pelo limite prático de automatizar o que exige manipulação física ou destreza manual. Os dados do Brasil, a seguir, mostram o mesmo padrão.
O que os estudos mostram no Brasil?
Pesquisadores do FGV Ibre (2026) aplicaram o índice da OIT aos dados da PNAD Contínua, do IBGE. No 3º trimestre de 2025, quase 30 milhões de pessoas, perto de 3 de cada 10 ocupados, estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa. Cerca de 5,2 milhões estavam no grau mais alto, e três de cada quatro delas trabalhavam como escriturários.
Pelo mesmo estudo do FGV Ibre, a exposição é maior entre mulheres (cerca de 35 de cada 100 mulheres ocupadas, contra 25 de cada 100 homens ocupados), entre jovens, entre quem tem ensino superior e nos serviços. Na intermediação financeira, 9 de cada 10 ocupados estavam em ocupações expostas; na construção, 4 de cada 100; na agropecuária, menos de 2 de cada 100. Os autores avisam que essas estimativas não permitem dizer se alguém será substituído, porque a IA também pode complementar o trabalho.
Um segundo texto do Blog do Ibre, assinado pelo economista Daniel Duque (2026), procurou efeitos já observados. Comparando perfis de trabalhadores mais e menos expostos entre 2022 e meados de 2025, ele encontrou, entre jovens de 18 a 29 anos com perfil mais exposto, uma queda maior na ocupação e na renda, que se aprofundou ao longo de 2024 e 2025. Entre 30 e 59 anos, os efeitos médios ficaram pequenos e, na maior parte do tempo, perto de zero, embora a renda dessas faixas também mostre uma tendência negativa mais recente.
A leitura do autor é que, ao menos nesta fase inicial, a IA generativa atinge sobretudo tarefas de entrada de carreira, mais comuns entre os jovens. Ele ressalta que não se trata de um colapso geral do emprego, que o índice da OIT mede potencial e não uso real, e que a janela de dados ainda é curta.
Como saber se a minha profissão está exposta à IA?
Olhe para a sua rotina, não só para o nome do cargo: pessoas com o mesmo cargo podem passar o dia em tarefas bem diferentes.
- Liste as tarefas que mais ocupam o seu tempo.
- Para cada uma, veja se ela é feita no computador, com texto, números, imagens ou código, ou se depende de presença física e de contato com pessoas.
- Procure se já existe uma ferramenta disponível hoje que execute a tarefa, com documentação oficial, e não só anúncios ou previsões.
- Separe o que a IA faz sozinha do que ela só apoia enquanto você revisa, decide e responde pelo resultado.
O Meu Prazo é um site brasileiro que estima, num índice heurístico de 0 a 100 e com fontes, o quanto as tarefas de uma profissão estão expostas à IA hoje. Não é probabilidade de demissão; se faltam evidências, o número fica em aberto.
A pesquisa considera quatro tarefas típicas da profissão informada e mostra as fontes de cada leitura. Leia a metodologia do índice ou veja como funciona.
Analisar as tarefas da minha profissãoFontes
Os números desta página são das fontes abaixo, nas datas indicadas. Ela não traz ranking de profissões nem índices do Meu Prazo. Os dois textos do Blog do Ibre são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a posição institucional da FGV. Os links levam ao texto completo de cada um; o de Daniel Duque abre a cópia guardada no Internet Archive, porque o Blog do Ibre estava fora do ar na última revisão desta página.
- OIT · Pawel Gmyrek, Janine Berg e outros. Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure. ILO Working Paper 140, maio de 2025.
- FGV Ibre · Fernando de Holanda Barbosa Filho, Janaína Feijó e Paulo Peruchetti. Inteligência artificial e mercado de trabalho. Blog do Ibre, 5 de fevereiro de 2026.
- FGV Ibre · Daniel Duque. Inteligência artificial generativa e mercado de trabalho no Brasil: evidências iniciais sobre ocupação e renda. Blog do Ibre, 27 de abril de 2026.